sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Wallace e os fundos

Se havia dúvidas que o futebol português está minado pelos fundos e agentes de jogadores, a história do Wallace revelada esta sexta feira, 22 de Agosto, é um bom exemplo. O jogador que tinha sido (supostamente...) adquirido pelo SC Braga por mais de 9 milhões de euros (que tem um orçamento global de perto de 15 milhões para toda a época), treinou poucos dias, lesionou-se :) e menos de 30 dias de ter aterrado em Portugal foi transacionado para o Monaco, sem nunca ter sequer jogado pelos arsenalistas.

No meio de tudo isto, dois personagens que são sócios e que utilizam o Braga e outros clubes portugueses e europeus para fazerem realmente aquilo que lhes interessa: ganhar milhões de euros em comissões de venda de jogadores e deter o poder do futebol, que antes era das televisões e agora é dos fundos.

Jorge Mendes e António Salvador estão-se nas tintas para o SC Braga, estão-se nas tintas para os adeptos bracarenses e para os restantes adeptos do futebol. Clubes, adeptos e a própria modalidade são apenas suportes para uma gigantesca teia de comissões e intermediações de milhões que é o verdadeiro objectivo da sua ação.

Antigamente, quem detinha o poder das TV's é que mandava nos clubes. Joaquim Oliveira era o DDT (Dono Disto Tudo) com o seu modelo de negócio de pagar à cabeça 10 ou 15 anos de contratos exclusivos para as transmissões dos jogos de futebol para a sua Sport TV. Nos últimos anos, apareceram os empresários e agentes de futebol que recriaram outro modelo de negócio, assente nas intermediações de transferências, inovando na gestão: o jogador A só era comprado se também se comprasse o atleta B que depois era colocado noutro clube a render, pagando-se muitas vezes gato por lebre (pelos clubes...), mas sempre com duplicação de comissões.

Este setor evoluiu para os chamados fundos de jogadores que basicamente são uma mescla do modelo de negócio de Joaquim Oliveira e dos agentes de jogadores. Os clubes alienam passes a Fundos que pagam à cabeça um determinado valor e que depois ganham comissões em transferências futuras ou são recomprados sem que os fundos percam alguma coisa. Até aqui tudo bem neste mercado de futuros, desde que a ganância e a ânsia de poder não mudassem o sentido das coisas. Mas com os ventos de crise em todo o lado desde finais de 2008 / 2010, os jogadores de futebol transformaram-se numa commodity interessante e mais fáceis de controlar do que as bolsas de mercados. O problema era só um: como criar liquidez e lucros no curto prazo, face à duração normal das épocas de futebol ?

É aqui que a bolha se começou a formar. Para quê ter uma posição passiva à espera que os jogadores se valorizem após 2 ou 3 anos quando se pode mexer no mercado e ativamente criar fluxos de curto prazo que garantam mais liquidez e mais lucros ?

Sendo os fundos sociedades anónimas onde não se sabe lá muito bem quem está dentro, tendo os clubes (a maioria deles...) estatutos e formas de gestão muito vulneráveis aos assaltos de piratas e criando novos e poderosos aliados no processo, foi muito fácil para estes senhores tomarem conta do negócio e desenharem transações de curto prazo que dão milhões e que ao mesmo tempo atraem novos investidores especulativos necessários para alimentar a bolha.


Uma bolha que cresce de dia para dia, e que, como todas as bolhas irá rebentar mais cedo ou mais tarde. Até lá, os Wallaces deste mundo serão em parte carne para canhão, embora eles (jogadores) sejam neste momento um dos grandes culpados deste movimento especulativo que irá destruir o futebol europeu nos próximos anos.

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